A Espanha deve se apegar ao euro?

O euro é a nossa moeda

Michael Pettis - Economista - Artigo em La Vanguardia -

Ao longo dos próximos anos, à medida que a economia continua a deteriorar-se, é provável que o debate sobre se a Espanha deve ou não abandonar o euro se intensifique. Os defensores da moeda única, principalmente as elites políticas e financeiras, afirmam que apenas o euro pode impedir que a Espanha se torne um país do Terceiro Mundo. Se realizar um ajuste responsável através da deflação salarial e da austeridade fiscal, afirmam, o país sairá da crise mais forte do que nunca.
 
Mas conseguirá sair? Ao renunciar à peseta, a Espanha também renunciou ao controlo da política monetária nacional, em grande medida como os países regidos pelo sistema do padrão-ouro no final do século XIX. E, como eles, a baixa competitividade das suas exportações obriga-a a passar agora pelos mesmos difíceis ajustes para reduzir preços.  
 
O custo será grande. Segundo o economista americano Barry Eichengree, com o padrão-ouro o peso do ajuste foi suportado principalmente pelos trabalhadores através do desemprego e baixos salários. A emancipação política dos trabalhadores no século XX, acrescenta Eichengreen, impede que as democracias ocidentais voltem ao ouro, porque numa democracia moderna os trabalhadores recusam-se, com toda a razão, a pagar esse custo.
Se Eichengreen está certo, é provável que os trabalhadores espanhóis também se recusem a pagar o custo de manter o Euro. No entanto, abandonar a zona euro, condenará a Espanha à decadência económica a longo prazo? Quase com toda a certeza, não. Em França ocorreu há muitas décadas um debate semelhante que pode lançar alguma luz sobre os problemas actuais.
 
Após a Primeira Guerra Mundial, que fez explodir os acordos monetários dos anos anteriores, Paris enfrentou a questão de o que fazer com o franco. Assim como a maioria dos países, a França passou durante o conflito por uma grave inflação que tornou difícil voltar à paridade com o ouro pré-guerra, em grande medida como ocorreu na última década com a Espanha, onde a inflação em relação à Europa do norte tornou o país nada competitivo.
 
No início do século XX, aceitava-se de forma generalizada que um país sério tinha que se manter no sistema do padrão-ouro. Considerava-se que não fazê-lo era irresponsável e condenava o país ao estagnação económica. Durante grande parte da primeira metade da década de 1920, a França lutou com todas as suas forças para voltar ao padrão-ouro de acordo com a taxa de câmbio pré-guerra.
 
Contudo, não conseguiu fazê-lo. A inflação erodiu tanto o valor do franco que a indústria francesa deixou de ser competitiva; e, na primeira metade da década, o país sofreu um elevado desemprego e um baixo crescimento. Em 1928, cedendo ao inevitável e em meio à crise política, o presidente Poincaré desvalorizou o franco.
 
A capitulação da França à irresponsabilidade monetária mortificou os seus banqueiros e ganhou-lhe os insultos desdenhosos da Grã-Bretanha e do resto da Europa. Tanto na França como no exterior, foram feitas previsões confiantes de que a economia nacional cairia na inflação e estagnação.
 
Não foi assim. Na realidade, a economia francesa recuperou-se. Na verdade, a desvalorização do franco não foi um ato de irresponsabilidade, mas um simples reconhecimento tardio de uma realidade monetária.
 
Além disso, enquanto os concorrentes da França lutavam para manter as suas moedas sobrevalorizadas, os resultados económicos franceses rapidamente ultrapassaram os dos países rivais. Quando grande parte do mundo foi arrastada para a crise de 1930-31, o país permaneceu em grande medida imune às profundas depressões que atingiram os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a maioria do mundo industrializado.
 
Outros países acabaram por ser forçados a desvalorizar a sua moeda e Paris condenou maliciosamente a irresponsabilidade dos mesmos países que haviam criticado tanto a França alguns anos antes. Com o ouro a acumular-se no Banco de França graças a um sector exportador já forte, a França voltou a ver-se com orgulho como garante mundial do rigor monetário.
 
Foi um erro, um erro que o historiador Tom Kemp chamou de "vício quase patológico" na ortodoxia monetária. À medida que um país após outro desvalorizava sua moeda no início da década de 1930 (os Estados Unidos acabaram por fazê-lo em 1934), a posição competitiva da França enfraqueceu rapidamente, embora o país se mantivesse firme na sua posição de não recorrer novamente a uma desvalorização.
 
A economia francesa começou então a ressentir-se fortemente. Enquanto o resto do mundo ajustava suas moedas, a França sofreu novamente deflação, baixos salários e desemprego; isso enfureceu os trabalhadores, enfraqueceu a economia e levou o país à beira do colapso económico e político.
 
Quando em 1934 a recuperação mundial começou, a situação da França apenas piorou.
Em 1936, Paris foi incapaz de manter o valor do franco e foi obrigada a abandonar novamente o padrão ouro de forma ignominiosa.
O custo da espera foi enorme. No final, a França foi um dos países mais afetados pela Grande Depressão.
E todo o sofrimento foi em vão. O país foi obrigado a uma nova desvalorização; e, quando o fez, teve que carregar o peso adicional de fábricas fechadas, trabalhadores furiosos e infraestruturas pobres.
 
Que lição pode ser aprendida para a Espanha? Pelo menos duas. A primeira é que a capacidade de dirigir a política monetária nacional é um instrumento político muito importante, embora muitas vezes alguns líderes irresponsáveis tenham abusado dele.
 
Ao apegar-se patologicamente ao euro, a Espanha coloca-se numa posição de enorme desvantagem perante a Alemanha e outros países com superávit de capital na Europa e no resto do mundo.
 
Como aconteceu com o apego da França ao ouro nas décadas de 1920 e 1930 (que parecia responsável na época, mas que em retrospectiva foi tremendamente insensato), uma luta desesperada de Madrid para manter o euro pelo maior tempo possível não parecerá um dia heroica, mas sim uma loucura. O euro não serve à economia espanhola tal como está hoje organizada, e recusar-se a reconhecer isso não é um sinal de maturidade nem de responsabilidade.
 
A segunda lição é que o apego dos banqueiros e dos responsáveis pela formulação de políticas econômicas ao comportamento monetário responsável nem sempre é justificado. O custo económico de manter uma moeda sobrevalorizada durante um período de fraca demanda mundial pode ser tão alto que enfraqueça a credibilidade que se pretende alcançar com essa rigidez monetária. Os investidores espanhóis e estrangeiros não aplaudirão uma Espanha que se apega heroicamente ao euro se a economia se desmoronar e o desemprego se mantiver em níveis altos durante anos.
 
Não é apenas o caso da França que ilustra esse perigo. Durante as décadas de 1920 e 1930, os países que abandonaram mais cedo o padrão-ouro também saíram mais cedo da Grande Depressão. Quanto mais tempo um país defendeu sua moeda (como aconteceu com os Estados Unidos, a França e os países do Bloco de Ouro), piores foram as consequências.
 
Numa contradição global a longo prazo, a inflexibilidade prejudica o crescimento e até mesmo a credibilidade. A Espanha deveria aprender com a história. Não há dúvida de que participar no euro tem vantagens, mas a história das uniões monetárias mostra que os benefícios só existem durante os períodos de rápido crescimento mundial e de crescente liquidez. Quando termina o ciclo de globalização, as uniões monetárias sempre colapsam.
 
A Europa não é uma zona monetária ótima; e, num mundo com uma fraca demanda mundial, o custo para a Espanha de se submeter às necessidades monetárias e fiscais da Alemanha será altíssimo. E tudo para quê? Após anos de esforço, a Espanha será forçada a abandonar o euro de qualquer maneira.
 
Quanto mais tarde o fizer, como o caso da França nos ensina tão claramente, maiores serão os sofrimentos.